Arquivo do mês: fevereiro 2010

Sou (a partir de agora)

Não dá mais para começar um texto com “a partir de agora”. Isso já soa como promessa e promessa, pelo menos pra mim, vira lenda. Então, começo este texto dizendo: “sou”. Assim não implica em nenhum tempo verbal programado para o futuro, mesmo que próximo.

Sou uma pessoa calma que não anseia por mudanças rápidas, desafios e, acima de tudo, que é extremamente satisfeita e realizada na vida profissional.

Pois é, sou tudo isso e por isso que não reclamo da vida, não choro a noite e muito menos vivo pensando em um futuro melhor. Amo tudo o que tenho, agradeço aos céus por minhas conquistas e não almejo nada melhor.

Não tenho medo de mostrar minhas fraquezas, porque, afinal, não tenho nenhuma e, mesmo se tivesse, exporia com todo orgulho aos meus amigos fiéis, mostrando-me um ser humano passível de medos, erros e outras regalias mundanas. Enfim, sou o mais próximo do que eu imagino ser a perfeição e nunca deixarei de ser assim.

PS: Entendam que o verbo no presente passou a ser utilizado somente neste texto, o que deixa claro que antes eu não era nada disso. Como expliquei no começo, o “ser “deu lugar ao “a partir de agora”. Agora chega de explicações se não me convenço de que usei o verbo no tempo correto.

A casa dos (nada) budas ditosos

Há tempos tinha vontade de ler “A casa dos budas ditosos”, mas, sem entender o porquê , demorei anos para me render a este clássico da literatura contemporânea-cômica-pornográfica.

Então, após muito relutar, segunda-feira peguei emprestado o exemplar na livraria (aqui na Livraria Cultura, funcionários podem pegar livros emprestados por um mês) e imaginei que depois de ler, devolveria o livro às prateleiras. Mas, para minha surpresa, no decorrer das frases, a vontade de ter este livro exposto na estante foi crescendo.

A estrutura textual é estranha. As frases são longas, muitas vezes desconexas, mas é justamente isso que dá veracidade na história. Realmente parece que a personagem está conversando com você. Ela mistura assuntos, diz coisas que somente alguém com bastante repertório pode entender perfeitamente (já que ela é culta e o tempo todo faz menção a algum autor, filósofo e etc), mas traz a leveza de um mero bate-papo, o que cumpre muito bem o papel que o livro está disposto a fazer: uma história verídica, narrada pela personagem e que não merece dúvidas.

A personagem, que em nenhum momento se identifica, já passa dos seus 70 anos, mas ainda conserva aquela sacada de alguém que um dia já foi bastante descolada (e promíscua). Ela fala de sexo o tempo todo, conta detalhes de suas transas, relembra momentos inesquecíveis de sua vida e faz questão de expor todas as suas opiniões sobre os assuntos mais polêmicos do mundo. E ainda não mede palavras para explicar os pormenores de suas transas, é de “pau” pra baixo. Ela é tão intensa que em suas declarações, mais especificamente sobre sexo, dá para perceber que ela gosta de sacanagem e que viveu intensamente tudo o que uma vida sem preconceitos pode oferecer. Ou seja, não há dúvidas de que essa mulher existe, mesmo que suas histórias sejam a maioria inventada. Tenho certeza, e quero acreditar que esta mulher existe e sente da forma como sente, só não tenho certeza se ela teve a oportunidade de realmente viver todas estas histórias surreais.

Me peguei várias vezes rindo com as besteiras que ela narra, mas também já fiquei boquiaberta com as ideias nada convencionais da velhota. Cheguei a cogitar a minha frigidez, pois da forma que ela fala parece que todos se privam diariamente do prazer e todos, mas absolutamente todos, vivem escondendo suas depravações por pura hipocrisia da sociedade.

Se fosse apenas sexo (mesmo que entre o mesmo sexo) eu juro que entenderia, mas a maluca defende o incesto e o sexo com animais. E o pior é que ela é tão convincente, que como eu disse, cheguei a questionar minhas convicções.

Enfim, comecei o post apenas para dizer que por algum motivo este livro me cativou muito, tanto que desisti de devolvê-lo a livraria e vou dá-lo a minha amiga mais depravada e a que, frequentemente, me convence de que sou antiquada em alguns aspectos. Talvez seja este o motivo pelo qual adorei o livro, pretendo lê-lo de novo e recomendo. É bom escutar sandices, rever conceitos e questionar até o mais inquestionável dos assuntos, acho saudável e válido.