Tem posts que parecem nascer de parto normal (e fórceps). Juro que não queria mais uma vez entrar no mérito das confusões mentais e crises humanas, porém, quanto mais eu vivo, leio, escuto e vejo, mais me deparo com o caos que assola as mentes humanas.
Poderíamos começar falando da dificuldade das escolhas nos tempos modernos ou do excesso de expectativas que criamos e acabar citando os errôneos modelos de felicidade que a sociedade nos impõe. Mas, o problema é que divagar sobre isso talvez me deixasse ainda mais confusa e, se fosse possível, ainda mais frustrada. Por isso, resolvi levar a ideia para o outro lado.
Nos tempos das cavernas, se alimentar e ter onde dormir tomavam todo o tempo dos nossos ancestrais. Por isso, estes meros mortais (mais mortais do que nunca, diga-se de passagem) não tinham crises existenciais nenhuma. A felicidade não era nem um conceito e muito menos conhecida como um sentimento necessário para se viver. A felicidade se resumia em dormir bem e conseguir o melhor pedaço de carne.
Por mais que seja impossível para nós imaginarmos, ainda existem pessoas que vivem como estes ancestrais e, portanto, existem muitas pessoas que passam a maior parte de sua vida tentando apenas sobreviver. Felicidade, escolha, expectativa, tudo isso existe, mas em proporções infinitamente menores e bem mais simples.
Não quero levantar a bandeira dizendo que somos uns burguesinhos mal agradecidos ou que estes seres humanos são melhores que nós. O que proponho é que tentemos lembrar com mais frequência que chegamos longe demais e temos muito mais do que um dia imaginamos ter. Portanto, não se deixe pressionar pela pefeição e não entre em colapso diante das escolhas.
O que eu queria mesmo era conseguir pelo menos três dias da semana ser menos reclamona e tentar pensar que, não passar frio ou fome, já é mais do que suficiente.
É foda eu sei, porque até mesmo eu, que bravamente escrevo isso, ao terminar de digitar as últimas letras da frase acima, já não acreditava ser possível. O problema é que não temos vergonha de sermos assim e todos os nossos terapeutas nos encorajaram a sentir tudo. E mesmo que isso seja uma jogada para adquirirem cada vez mais pacientes, eles têm razão, afinal, se vivemos de maneira tão diferente da idade da pedra ou de pessoas que vivem abaixo da linha da miséria, porque devemos continuar conceituando a felicidade como eles?
A verdade é que no meio de uma reunião estressante, briga com o namorado e trânsito caótico, não dá para se lembrar das pessoas que não têm escolhas. Simplesmente nos firmamos em nossos próprios sapatos e não conseguimos ver um palmo a nossa frente. A busca pela felicidade e perfeição fala mais alto e a frustração nos torna uns filhas da puta mal agradecidos da vida.
Eu me sinto muito envergonhada de reclamar da vida que tenho, exigir sempre mais ou não conseguir me sentir plenamente feliz por não ter realizado as coisas mais banais que o mundo moderno (e rico) oferece. Mas, por mais envergonhada que me sinta, continuo agindo e pensando da mesma forma, porque simplesmente sou encorajada a isso. E não só pelos terapeutas, mas por todos que continuam acreditando no modelo de felicidade contemporâneo.
É engraçado que até mesmo se eu não souber divagar sobre as lamentações contemporâneas não me encaixaria no modelo requisitado e me tornaria uma espécie de E.T. Quer dizer, as frustrações e reclamações fazem parte dos padrões da vida moderna e ai de mim se não seguir a risca. Parece que se a gente não sofrer com essas banalidades não fazemos parte da classe burguesa e pensante e, mais uma vez, nos frustraremos por não estarmos dentro das “normas”. Uma bola de neve, um grande paradoxo e, mais que isso, uma grandiosíssima merda.
Portanto, eu lhes proponho: tenhamos coragem de sermos felizes com o que temos, tenhamos coragem sermos menos exigente, tenhamos coragem de nos comparar com pessoas infinitamente mais pobres que nós e tenhamos coragem de sorrir com um simples prato de comida, do mais PF possível!